Tem o saber uma legitimidade que o saber oral ou visual não poderia pretender? É nesses termos que, com freqüência, se instauram inflamadas controvérsias...Em apoio à evidência desta asserção, haveria, por exemplo, nossos sentidos que nos enganam, que tendem a nos extraviar, diante da sugestão da imagem. Esquecemos rapidamente, quando se fala deste saber cultivado ou legítimo, que a passagem histórica das civilizações da orlaidade às civilizações do escrito também provocou debates apaixonados. A diferença era que, então, o escrito fazia o papel de acusado.
1. O diálogo de Fedro e de Sócrates
A referência mais célebre desta querela se acha no diálogo entre Fedro e Sócrates que nos propõe Platão no Fedro ( c. 370 a.C.). A escrita é um pharmakon, uma droga perigosa cujos efeitos são imprevisíveis. Por quê? Simplesmente porque os homens correm o risco de perder a memória. Como não ver também que estas mensagens escritas terão aceso a uma independência, a uma autonomia? Desonectadas da intenção de seus autores, elas poderão ser lidas por qulaquer um, será possível haver contra-sensus, interpretações erradas... e Sócrates, em apoio a sua tese, contava a história do deus Thot, que vivia no Egito, na região de Naucratis, e que foi o primeiro a inventar o cálculo, a geometria, a astronomia e a escrita. Quando Thot vem apresentar o rei Thamus, deus de todo o Egito, sua maravilhosa invenção, ele a apresenta nestes termos: "Eis aqui, ó rei, um conhecimento que tornará os egípcios mais sábios, e lhes dará mais memória: memória e ciência encontraram um remédio"
Thamus, porém, contesta esta visão muito otimista. Bem ao contrário, ele adverte contra os perigos da escrita:
"Como tu és o pai da escrita,atribuis a ela, por benevolência o esquecimento nas almas daqueles que a terão adquirido, pela negligência da memória; fiando-se ao escrito, e de fora, por caracteres estrangeiros, e não de dentro, e graças ao esforço pessoal, eles se lembrarão de suas lembranças."
E Sócrates acrescenta dirigindo-se a Fedro:
"Uma vez escrito, cada discurso vai rolar por todos os lados, e passar indiferentemente por aqueles que conhecem e por aqueles que não conhecem nada disso; ele ignora a quem ele deve ou não deve se dirigir. Se vozes disordantes se fazem ouvir a seu respeito, se ele é injustamente injuriado, ele tem sempre a necessidade e o socorro de seu pai. Sozinho, com efeito, ele é incapaz de responder a um ataque e de se defender".
Notemos a posição incômoda de Platão, relatando por escrito as afirmações de Sócrates, seu mestre, que sublinha as vantagens da palavra oral contra o escrito! Estranha guinada que simboliza bem a relação complexa que mantemos com as mídias...
A oralidade é tão importante no mundo ateniense que a punição suprema consiste a recusar-se a dirigir a palavra àquele que é excluído da cidade. Em Édipo Reis, de Sófocles, o herói que busca desesperadamente o assassino de Laios, o antigo rei de Tebas, sem saber ainda a terrível verdade declara: "Quem quer que seja o culpado, eu proíbo a todos, neste país onde eu tenho o trono e o poder, que se o receba, que se fale comele, que o associe às orações e aos sacrifícios".
Sabemos, por outro lado, que a arte da retórica, que se desenvolve notadamente sob o impulso dos sofistas, propóe técnicas do discurso, exercícios destinados a ensinar a persuasão, a captar a adesão de um auditório, práticas tanto mais necessárias que uma parte da vida pública acontecia e as decisões da cidade eram tomadas em seguida aos debates. Não se trata então da reflexão que traz o escrito, da distância salutar dos argumentos sobre os quais podemos nos deter ao lermos. Certo, o grego médio provavelmente não sabia ler corretamente por falta de prática. Estima-se todavia que ele não tinha dificuldade em decifrar uma mensagem simples.
Assim, a história mostra oposições resolutas quando aparece uma nova técnica que subverte as posições dos depositários do antigo saber. O distanciamento nos permite avaliar que a oralidade não perderá nada de seu poder, de sua magia, mas que os homens descobrirão, graças a esta concorrência artificial, as especificidades da palavra oral e da escrita, e sua complementaridade, e o caráter apaixonado do debate se esvanecerá.
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